CEAP, a escola da família

UMA HISTÓRIA PARA CONTAR

4º Lugar - 3ª Série


Travessura Sensata

Augusto Ferreira Göller


Lembro bem que, em novembro de 2007, no primeiro ano do ensino médio, estava vivendo uma nova fase da minha vida. A luta por uma vaga no vestibular deveria ter começado ali. Luta? Vestibular? Na verdade, a realidade era que, até então, eu não ligava para vestibular. Não tinha amadurecido a ponto de pensar o que eu queria ser.

Essa imaturidade se comprovou quando, certa vez, eu precisava alcançar a nota 19 em uma avaliação de física, que valia 20 pontos na nota trimestral. Era muito difícil! Física nunca foi meu forte. Ou seja, precisava ser perfeccionista ao entender aquelas fórmulas todas, algo que eu não dominava. Era véspera de avaliação. Simplesmente, meu corpo amoleceu, deprimi de uma forma que me ousei a ir até o mercado mais próximo (e o mais caro também) para comprar “energéticos” líquidos, desses caríssimos e que pouco adiantam. Pouco me importavam os 40 reais gastos em bobagens, queria mesmo era gabaritar o teste que, até aquela hora, do que se trataria. Ao voltar, com sacolas de “Red Bull”, abri meus cadernos e o bom livro vermelho de física (Me desculpem os autores Ramalho, Nicolau e Toledo, mas naquela noite meus conhecimentos sobre Mecânica não se ampliaram). Por mais que eu estudasse (e, concomitantemente, tomasse aquelas bebidas amarelas que alguns diziam que “dão asas”), estava certo de que lgo sério tinha acontecido comigo.

Foram 5 horas de pura depressão e nervosismo. Não adiantava. Não sabia o conteúdo e não aprenderia de maneira alguma. O que me restava era dormir, ir à aula e tirar uma notazinha minúscula na prova (se é que tiraria alguma nota), conseqüentemente. A noite passou, dormi duas horas, tempo pequeno, pois o cansaço era menor que o nervosismo que reinava sobre eu corpo naquela noite. Cheguei à escola eram 7 horas e alguns minutos. Surgiu ali uma proposta que me atiçou: dois amigos (porém, más influências) me puxaram para o canto do pátio e me convidaram para ir para uma sala no primeiro período da manhã para que estudássemos (entraríamos na sala no segundo período, horário da prova, nos aproveitando da regra que a escola permite). Impressionante, meus amigos tinham o plano inteiro articulado em suas mentes, até pensaram em um local livre para estudarmos durante alguns minutos, tudo bolado no dia anterior, enquanto eu estava ao prantos. Falávamos repetitivamente as fórmulas, um para o outro, pois sabíamos que a repetição era a chave do aprendizado (naquele instante, era a chave da decoração, isso sim).

- “O produto da massa e do o quadrado da velocidade...” – um de nós dizia.
- “Dividido por dois! Não esquece!” – Outro completava.

Detalhes que não poderíamos esquecer, realmente. As fórmulas das energias cinéticas, potencial e potencial elástica estavam me repugnando, pois havia lido elas centenas de vezes à noite e umas das vezes pela manhã. Porém, foi nessas dez vezes que as fórmulas entraram em meu pensamento, e eu pude compreendê-las (Enfim! Incrível!). algo naquela manhã me inspirou a transpor tudo aquilo que estava no meu inconsciente para o meu consciente do meu cérebro. Deixo essa relação de consciente e inconsciente para que Freud explique. Mas, será que ele explicaria? Como pude eu, em alguns minutos, aprender o que não aprendi durante 5 horas? Eu estava certo de que nunca entenderia as fórmulas! Duvido que Freud explicaria!

- Bom, galera. São oito horas. Vamos pegar a autorização para assistirmos a aula. – Disse, completamente aliviado com a situação.

Dirigimo-nos até o gabinete do Alvaci (Alva, como gosta de ser chamado), lugar se consegue autorizações, entretanto, ele não estava lá. O nervosismo voltou a tomar conta , porém, dessa vez tomou conta dos três que precisavam de autorização. Onde poderia estar o Alva? Dando algum recado para alguém? Monitorando alguma turma que estaria em avaliação? Que nada, ele estava lá embaixo , na portaria! Mas como é que iríamos até a portaria , vindo do pátio da escola em direção à portaria? O certo, quando alguém se atrasa, é entrar do lado de fora da escola e passar pela portaria. Ele desconfiaria certamente de que estávamos “matando aula”. “Aquelas alturas” , não tínhamos tempo para pensar. O que deveríamos fazer era o mais simples: fingiríamos que nada estava errado e pediríamos as autorizações, na “cara-de-pau” mesmo.

- Opa, Alva! Precisamos de algumas autorizações, pois nos atrasamos um pouquinho! – Falei, totalmente inseguro da resposta que receberia.
- Tu? Sei que não estou louco e te vi entrando as sete e meia, rapaz! – respondeu. Estava brabo!
- Que isso! O senhor está envelhecendo, seu Alva. Está me acusando de ter matado aula? Nunca fiz isso na minha vida! Que falta de consideração! – provoquei, mas com a voz tremula de nervosismo.

No fim, ele nos autorizou, mas ficou um ar de desconfiança e eu achava que ele iria nos entregar a direção. Cheguei à hora da prova. Realizei-a e, ao sair da sala, estava certo de que chegaria ao meu objetivo: os 19 pontos. O resultado foi 19,4! Ótimo! Minha situação se estabilizou. Como aprendi aquelas fórmulas? Não sei! Talvez algum pensador contemporâneo descubra como aprendi algo em poucos minutos (algo que não consegui sequer ler em 5 horas). Agora, será que se eu não fosse contra as leis escolares e desobedecendo aos ensinamentos dos meus pais eu iria me dar bem? É pouco provável! Aprendi que devemos usufruir da nossa consciência (chamada boa fé) e, se matarmos aula, que seja de vez em quando e para fins de estudo!

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