Felipe Halfen Noll
Três anos e meio haviam se passado desde o dia em que eu entrara no Colégio. Toda a turma estava agitada, como de costume nessa época do ano, a única coisa diferente perante os outros anos era que agora teríamos matérias distintas e notas numéricas. Foi nesse clima de euforia que um senhor negro e simpático entrou em nossa sala. Depois de uma breve explicação dada pela professora, ele lançou um convite para a turma inteira. Ele era o professor da Banda Marcial do Ceap, seu nome era Sidney e ele estava passando de sala em sala a recrutar jovens para a banda. Eu, que vira uma vez apenas a banda do Ceap em ação, tinha me apaixonado de primeira – Efeito esse que era comum nas crianças – e resolvi pôr meu nome na lista. Nesse dia cheguei em casa atônito, pois eu sabia que estava fazendo a coisa certa, e a notícia provocou boas impressões em toda a família. O que mais gostou da notícia foi meu avô, ele sempre investira muito em professores de música para meu pai e cinco tios, mas nenhum deles sequer passou da segunda aula, rejeitando a música de forma direta.
No primeiro ensaio da banda, me senti estranho, primeiro porque a maioria do pessoal que formava o conjunto já tinha anos de estrada, segundo porque eu não sabia tocar Tarol, era complicado pra mim aprender algo tão composto. Mas esses problemas foram resolvidos, pois o pessoal mais velho era tão legal que logo me senti à vontade. Um deles era o Cauê, um gordinho muito gente fina que tocava trompete – Instrumento esse que me atraía – outro era o Robson, esse tocava Sax e era irmão de Cauê. No mais eram esses dois que eram os mais legais, nunca me esqueço de quando o professor e Cauê brincavam. Cauê sempre imitava o famoso personagem Pit Bitoca, enquanto o professor imitava o Pit Bicha. Depois de um tempo, o professor Sidney foi despedido do colégio, as razões não são conhecidas por mim até hoje. Para substituí-lo entrou em 2004, um professor chamado Gesiel, Esse tinha expressões sérias e na prática era muito mais metodista e profissional que Sidney, isso não era bom, pois as músicas não eram certas para o público encontrado nas ruas quando desfilávamos. Gesiel foi se mostrando cada vez mais amigo, contradizendo assim a primeira impressão que passara a todos. Foi com ele que eu comecei a tocar trompete, um instrumento usado e um tanto velho, mas mantinha ainda um som bonito e melodioso. Esses instrumentos de metal foram sempre o diferencial da nossa banda marcial.
As aulas que sempre tive com Gesiel não eram as melhores, seguidamente eu não comparecia às aulas por não ter feito a lição de casa. Com o tempo, vi que não era muito aplicado no instrumento e comecei a desistir de tocar. Sempre que eu ia com minha mãe na escola pra dizer ao Gesiel que não iria seguir com as aulas ele usava de seu poder de persuasão para motivar minha persistência, o pior é que ele conseguia, e assim eu seguia na banda. Foi só em 2006 que eu saí definitivamente da banda, ainda me lembro do dia em que dei a notícia para Gesiel. “Posso riscar seu nome da lista de alunos?”- Me perguntou ele com ar de tristeza- “Pode”- Respondi, me senti um herói em conseguir resistir ao jogo, mas ao mesmo tempo fiquei triste por abandonar a banda, visando agora ser um ótimo guitarrista.
Fiquei assim durante longos três anos, a banda não passava de uma boa memória em minha mente, às vezes sentia vontade de tocar no trompete novamente, mas esse sentimento era reprimido pela minha vontade de não fazer nada. Foi à dois meses atrás que recebi uma visita na sala de aula. Era o professor de violão da escola, eu não fazia idéia de o que ele queria comigo, mas ouvi atentamente enquanto ele me perguntava se eu não queria voltar à banda. Eu disse à ele, depois de muito hesitar que iria pensar no caso. Quando cheguei em casa nem estava pensando nesse assunto, eu disse para o professor de violão que iria pensar pra não dizer um não na hora para ele, isso seria deselegante. Por ironia do destino, quando mexia em meu material de aula, encontrei uma foto antiga, eu estava fardado com as roupas da banda e ostentava um sorriso enquanto desfilava. Nesse momento, fechei os olhos e senti aquele dia à minha volta, lembrei da marcha compassada, da chuva que não parava de cair, da música que penetrava em meus ouvidos e das palmas que nos impulsionavam pra frente. Tudo isso virou uma poesia em minha mente e só parei de imaginar quando uma lágrima escorreu de meus olhos. Por que eu havia saído da banda? No outro dia, o que era pra ser um “não” frio se tornou um caloroso “sim” e no mesmo dia eu já estava ensaiando, agora sem Gesiel, sem Cauê , sem Robson e com a metade do número de pessoas que normalmente compunham a banda. Estou feliz agora que voltei para onde gosto, para o meio musical, representando minha escola.