Alexandre Kieslich da Silva
Nós seres humanos, somos sujeitos histórico-sociais, constituídos e constituintes de nossa própria história. Não escolhemos as condições, onde, nem quando nascer: quis o destino, ou melhor, a história que minha trajetória de vida testemunhasse o final do século XX e o início do século XXI. Contrariando temores e rumores, a chegada do Terceiro Milênio não foi o fim do mundo. Ao contrário, representa novas oportunidades de rever modos de vida, visões de mundo, bem como acontecimentos históricos que se circunscrevem em histórias individuais e coletivas. Viver no Terceiro Milênio representa, para mim, o milagre da renovação: cenários heterogêneos entram em cena, exigido a superação de gigantescos obstáculos e desafios. Ao cortar as fatias do tempo, olho o presente que contém o passado. Rememoro alguns aspectos de minha história de vida, levando em conta aspectos subjetivos e culturais. No que se refere ao aspecto pessoal, destaco dois acontecimentos marcantes: estudar no CEAP e ingressar no curso de Medicina. Atualmente, aos 22 anos, na esteira desse tempo, vivencio significativas experiências, das quais não me esquecerei jamais. Uma delas é a gripe “suína”: a humanidade é surpreendida pela primeira pandemia de gripe do século XXI.
Desafiando os avanços científicos, a gripe suína se transformou em pandemia. Os cientistas buscam explicações. Consideram que pode ter ocorrido uma recombinação genética do vírus da gripe das aves para um hospedeiro suíno. Infelizmente, o porco serviu de incubadora, dando origem a um novo subtipo do vírus, motivo da designação de “gripe suína”. Apesar dos aspectos negativos que Gripe A (H1N1) provocou até agora para a humanidade, ela me fez recordar de um fato inusitado, ocorrido no ano 2000, quando estudava no Colégio Evangélico Augusto Pestana (CEAP). Lembro que eu cursava a sétima série do Ensino Fundamental (foi um tempo que me influenciou sobremaneira). No componente curricular de Ciências, no decorrer da 7ª série, o objeto de estudos era o corpo humano. Para melhor entendermos sua anatomia e funcionamento, Enedina, a professora de Ciências, sugeriu que seria interessante observarmos “in loco” os órgãos de um animal recém abatido, como um boi ou porco, ao invés de estudarmos apenas através de livros, bonecos e modelos de plástico. Achamos a ideia ótima. Então, colegas da família Andreguetto e Montanger, do município de Ajuricaba, nos convidaram para assistir ao abate de um suíno. Convém lembrar que a anatomia física desse animal assemelha-se muito à humana. A similaridade é tanta que, de acordo com estudos, a insulina de porco (uma proteína suína), durante muito tempo utilizada por pessoas portadoras de Diabetes mellitus, é menos imunogênica que a bovina, ou seja, gera menor reação pelo organismo contra agentes que possuem propriedades diferentes de sua constituição. Há também estudos visando, futuramente, o transplante de órgãos de suínos em pessoas (xenotransplante).
Para nós, adolescentes, observar como eram os órgãos internos de um ser vivo de mais de 150 kg foi um momento inesquecível. Lembro-me que no início ficamos todos espantados. O animal grunhia muito e, alguns preferiram permanecer um pouco afastados. Contudo, após o primeiro susto, a curiosidade foi crescendo e, nos aproximamos para ver de perto o bicho morto. Ah, para nos ajudar a entender melhor venturosa façanha, contamos com a participação do Dr. Flávio Höerlle, pai de meu colega Flávio. Começamos então, a investigar a anatomia do suíno. De olhos arregalados, nos deparamos com um mundo visto antes apenas em livros. Foi uma fabulosa pesquisa de campo: pude ver e colocar as mãos nas vísceras do pobre animal. Observar as diferentes texturas, formas cheiros, etc. Assim por meio daquela significativa situação de aprendizagem, o CEAP possibilitou-nos uma aproximação real com o mundo vivido, instigando a observação de situações reais e concretas da vida, propiciando assim a formação do espírito científico. Mais tarde, percebi que a “abertura do porco”, não só possibilitou-me a vivência prática, como também contribuiu, juntamente com o incentivo da professora Enedina, para que a Medicina fosse a minha escolha profissional.
Nesse percurso de relembrar, volta-me à memória, que no mesmo ano, desenvolvemos também um projeto multidisciplinar, intitulado “Conhecendo a Minha História”. Este trabalho me possibilitou resgatar um pouco da trajetória de minha família. Na disciplina de História, com a professora Marlise, aprendemos a respeito da vinda dos imigrantes europeus: como iniciaram uma nova vida no Brasil, e as dificuldades e desafios por eles encontradas. Fomos desafiados a buscar nossas raízes. A partir disso, conheci as histórias pitorescas de meus antepassados, principalmente do Dr. Miguel Krüger, meu trisavô, que atuou por muitos anos em toda a região de Ijuí e foi amigo do engenheiro Augusto Pestana. Penso que se não tivesse coletado muitas informações, objetos e fotos naquele ano, possivelmente não haveria uma nova oportunidade no futuro. Também, com as professoras Marlene e Cleci, tivemos a oportunidade de ter contato com duas das línguas dos imigrantes, a alemã e italiana, o que me estimulou ainda mais a estudar o idioma alemão, língua de alguns de meus ancestrais. Realizamos também um evento para reunir nossos avós e expor os objetos antigos que encontramos. E para finalizar as atividades daquele ano, viajamos à Serra Gaúcha e à região de São Leopoldo, principais locais onde os imigrantes europeus instalaram-se no Rio Grande do Sul. Animados com esses estudos, pudemos realmente fazer uma volta ao passado: conhecemos uma “vila” de imigrantes e até fizemos um passeio de Maria-fumaça. Dessa forma, identifiquei-me com aquelas cenas, lembrei dos fatos e das emoções, dos sofrimentos de meus antepassados. Tudo isso me possibilitou não só observar, mas compreender melhor e participar do processo sócio-histórico da aventura iniciada por meus ascendentes. Esse resgate histórico foi possível graças ao incentivo de meus professores.
Enfim, o CEAP preparou-me não só para o mundo do conhecimento, como abriu perspectivas para tornar-me sujeito de minha própria história. Ensinou-me que aprender se entrelaça e se confunde com a desafiante e instigante jornada, que é a vida.