Marcos Fernando Kirst
No meu tempo, no alvorecer dos anos 80, a oitava série não pertencia ao Ensino Médio nem ao Ginásio e, sim, ao Primeiro Grau, nível do qual era o último degrau, o que nos conferia um certo status sobre a legião infantil dos pertencentes às sete séries inferiores. Usufruíamos privilégios tais como não precisarmos mais vestir o uniforme do colégio, assistirmos às aulas no turno da manhã ao invés de à tarde e podermos ir ao banheiro no meio de uma aula sem sermos obrigados a levantar o dedo e pedir à professora. Só não éramos os maiorais absolutos porque a prudência nos aconselhava a resguardar um respeito submisso aos mais velhos que integravam as três séries do Segundo Grau, com quem convivíamos no turno matinal, patamar ao qual aspirávamos mal conseguindo disfarçar a ansiedade por ingressar em um universo, aos nossos olhos, mais maduro e ainda mais repleto de privilégios. Naquela época tínhamos aulas de Português com o professor Florêncio Berger, uma lenda viva do ensino no colégio e no município já naquele tempo, e um grande entusiasta da língua pátria, assim como das artes clássicas em geral. Os cabelos grisalhos que fartamente lhe povoavam a cabeça contrastavam com a pretidão da pesada armação de óculos-fundo-de-garrafa que usava, conferindo-lhe de imediato uma aparência que nos impunha respeito, a despeito da aversão quase unânime que a classe nutria pela matéria que ele lecionava, sentimento ao qual eu me irmanava por nunca ter apreciado o estudo sistematizado do universo formado pelas regras gramaticais, pelos sujeitos ativos e passivos, pelos pronomes, pelas orações subordinadas, pelas conjunções, pelos pretéritos mais-que-perfeitos e pelas análises sintáticas.
Naquele ano de 1980, no entanto, o professor Berger decidiu transformar os dois últimos períodos da sexta-feira, que eram destinados à sua até então para nós enfadonha matéria, em algo diferente e, pelo menos aos meus olhos, muito interessante e agradável, especialmente porque se tratavam justamente das duas derradeiras horas de aula após o recreio e antes do início do final de semana, apesar das duas aulas de Matemática e História que ainda nos aguardavam aos sábados pela manhã. Com o propósito de incentivar o hábito da leitura entre os integrantes de nossa horda, digo, de nossa classe, o professor decidiu que aqueles dois períodos seriam transformados em aula de leitura. Isto posto, destinou cerca de trinta minutos para escrever a giz no quadro-negro (que sempre, em toda a minha carreira escolar, foi inexplicavelmente verde) os títulos e os respectivos autores de algumas dezenas de obras que ele julgava revestidas de interesse para que, entre elas, escolhêssemos as que desejávamos ler. Deveríamos copiar no caderno a lista (sim, copiar a lápis o que ia sendo escrito na pedra, em uma era em que não existiam microcomputadores, nem impressoras a laser, e o xerox ainda era uma máquina misteriosa e de alto luxo) e irmos, durante o ano, escolhendo os livros a serem lidos. Uma vez que todos os títulos estavam disponíveis na biblioteca da escola, não haveria maiores dificuldades, além do que era permitido trazer de casa os títulos que porventura já pertencessem ao acervo da família, ou a partir de empréstimos com avós, tios, colegas, amigos, vizinhos.
A exigência era chegar no dia da aula de leitura com um dos livros indicados, mostrá-lo ao professor, que preenchia uma ficha de controle com o nome do aluno e o livro que ele se propunha a ler (para posterior confecção de uma ficha de leitura, naturalmente, o que, em uma época desprovida de internet e Google, obrigava-nos a realmente levarmos a cabo o ato “leitural” que fora pactuado, para estarmos aptos a produzir os resumos a partir de nossos próprios cérebros, órgão que aparentemente possuíamos). Feito isto, sentávamos em nossas carteiras (chamávamos de classes) e enfrentávamos duas longas horas de silêncio, lendo. Para mim, que já era um leitor contumaz há pelo menos quatro anos, aquilo era um vislumbre do paraíso! Porém, havia um porém... Ter de passar a seguir as leituras impostas no quadro-negro pelo professor Berger, apesar de a lista ter sido composta notavelmente por títulos de incontestável interesse, me obrigaria a abrir mão da sequência pessoal de leituras que eu já programara por mim mesmo, a partir dos livros que equilibravam-se em crescente e indebelável pilha sobre o criado-mudo situado ao lado de minha cama. Que fazer? Ousar, oras, pelotas! Municiado com a coragem que um legítimo integrante da oitava série supostamente deveria apresentar, dirigi-me ao dia de estréia das aulas de leitura portando na pasta, ousadamente, não uma indicação do professor Berger, mas sim o livro que eu, por conta própria – e risco – já estava há semanas a ler. Junto ao professor, exibi o livro e fiz as devidas considerações, embasadas no fato já corrente e sabido entre todos os colegas e professores da escola de que eu era um leitor nato (certamente não utilizei exatamente esta expressão na época) e de que preferia trazer os livros de minha escolha para as aulas, além de intimamente julgar que prescindia de incentivos maiores à leitura, o que, obviamente, não disse, uma vez que eu podia ser meio diferente mas, certamente, não era louco. A proposta foi aceita sem maiores e nem menores contra-argumentações, com a única exigência de que eu fizesse, então, as fichas de leitura dos meus próprios livros, com o que concordei.
Analisando em retrospecto, o incrível que fica é a absoluta ausência de insurreição do restante da hoste, ou melhor, da turma, fenômeno que só posso creditar ao fato de que eu era amplamente visto entre meus díspares pares como um legítimo rato de biblioteca, e, naquelas duas horas da semana, eu nadava livre em meu próprio meio, percorrendo com intimidade um universo no qual os convidados eram eles, e não eu. Absolutamente ninguém chiou. Feliz da vida, cercado por “A Moreninha” na classe da frente, “O Ateneu” na classe à esquerda, “A Viuvinha” na classe atrás e “O Cortiço” na classe à direita, abri minha pasta e de dentro dela alcei para fora, soberbo e orgulhoso, “Histórias Para Ler Com a Porta Trancada”, coletânea de contos de horror integrante de uma coleção lançada pela Editora Record, em seleção atribuída a Alfred Hitchcock. As penugens de meu adolescente pescoço sentiam os olhares de inveja provenientes de todos os cantos da sala da Oitava B, enquanto o professor Berger, em suas regulares caminhadas pelos corredores entre as classes, parava ao meu lado, lia o título do livro sustentado pelas minhas mãos e chacoalhava os ombros em um riso condescendente e cúmplice, produzido por entre dentes, em uma das mais verdadeiras demonstrações de aprovação que minha hoje longa carreira de leitor já registrou receber.
Hoje não tenho dúvidas de que a anuência do professor Berger à minha decisão de dar sequência às minhas próprias leituras naquelas saudosas aulas cumpriu um papel fundamental na formação de uma vocação que resultou, passadas as décadas, no profissional de imprensa e escritor em que acabei naturalmente me moldando. A leitura ininterrupta de livros que protagonizo desde então ameniza e adocica o eventual peso da nostalgia pelos anos de formação no CEAP, carinhosamente guardados na memória.
* Estudou no CEAP entre 1971 e 1983, do jardim da infância ao terceiro científico. Ijuiense de nascimento, hoje é jornalista e escritor em Caxias do Sul.