Amanda Iserhard
Lembro-me dessa história perfeitamente, exceto pelo dia, nunca fui muito boa com datas. Mas era uma manhã ensolarada, eu estava na quinta série. As aulas de artes nunca foram muito produtivas na época em que eu ainda estudava á tarde, as conversas e brincadeiras eram muito mais atrativas do que as aulas em si. Talvez esse tenha sido o primeiro de muitos erros cometidos ao longo daquela semana, mesmo sendo inocente, brincar na aula não é uma conduta das mais aceitáveis. O projeto daquele trimestre era pintar uma tela, modéstia parte, sempre fui boa com as artes, tudo o que eu precisava era de tempo para pintar uma tela. E tempo era uma coisa que no meio de tanta conversa, se perdia. Isso significava que eu teria que vir em uma manhã extra, na verdade, eu e uma amiga. A manhã começou bem, e quem me dera se tivesse continuado assim. Depois de passar um tempo nos auxiliando, a professora deixou a sala, nos julgando responsáveis o suficiente para continuar trabalhando, sem fazermos bagunça ou algo do gênero. Seu julgamento foi um tanto equivocado. Depois de pintarmos uma boa parte da tela, fomos lavar os pincéis e rolinhos, secamos os pincéis em um pano, e passamos os rolinhos na parede. A água começou a escorrer, e ainda restava um pouco de cor nela, deixando assim uma marca na parede. Então, involuntariamente, nossos pensamentos pareciam compartilhados, como seria se a marca deixada fosse de tinta?
E quando nos demos por conta, uma explosão de cores surgia diante de nossos olhos. Os culpados? Nós mesmas. Eu não sei o que nós realmente estávamos pensando, mas era incrivelmente divertido como os rolinhos deslizavam sobre a parede, deixando sua marca tão precisa e colorida. Então, em alguns minutos, as pinturas antes existentes naquela sala estavam arruinadas, latas de tintas derramadas no chão, nomes desconhecidos escritos na parede. Um sorriso culpado dançava nos cantos de nossos lábios.
Ao analisar o estrago que fizemos, o medo e a angústia tomaram conta de nossos corpos infantis, e nossas pernas correram de uma forma involuntária até a porta. Ficamos trancadas no banheiro até decidirmos o que fazer, a culpa nos corroía. Voltamos para sala. Deparamo-nos com a coordenadora e com a professora, ambas pasmas. Ao entrar, nossa expressão era de susto, mas o motivo talvez fosse um pouco diferente do delas. Quando nos perguntaram o que havia acontecido ali, eu tomei a frente, e sem pensar muito, as mentiras começaram a fluir. Disse-lhes que havíamos saído para comprar lanche, e que agora que voltamos, estávamos surpresas com o estado da sala. E como não acreditariam em uma criança aparentemente tão infantil e angelical?
Voltei para casa, me sentindo culpada, e ao olhar nos olhos tão doces e fraternos de minha mãe, não pude me conter. Um jorro de verdade saiu de minha boca, enquanto escorriam lágrimas de meus olhos. Óbvio que ela não ficou contente, e nem tão pouco me apoiou, ao contrário, mandou-me contar a verdade. Após longas conversas com minha amiga, decidimos contar a verdade. Mas eu realmente me surpreendi quando a coordenadora, decepcionada, confessou-nos que estavam procurando os alunos com os nomes correspondentes aos das paredes. Às vezes eles pareciam mais ingênuos e crédulos que nós. De cabeça baixa ouvimos as advertências, e sinceramente, tivemos o que merecemos. A punição? Repintar as paredes tais como eram antes, e pagar pelas tintas que seriam usadas. Sinceramente, podia ter sido pior. E apesar de ser chamado de “castigo” ou “punição”, nós nos divertimos muito consertando os estragos. Continuava sendo uma explosão de cores, apenas mais organizada.
Até hoje, quando vejo aquelas paredes, uma nuvem de fantasias e lembranças toma conta de mim.