Eduardo Dalla Rosa Diettrich
1938 foi um ano ruim. Pelo menos é o que diziam os alemães bigodudos que plantavam mandioca aqui por esses rincões. Foi nesse ano que o presidente Getúlio Vargas lançou a Campanha de Nacionalização do Ensino, uma série de esforços para “abrasileirar” os imigrantes, especialmente as kind e os bambinos que estudavam aqui no Rio Grande do Sul. Mas estender a identidade nacional do Arroio Chuí ao Monte Caburaí não foi um processo tão simples. Antes, é importante jogar um pouco de luz nessa história. Ao assumir o comando da nação com plenos poderes, sem contar com oposição, Getúlio deu início à mesma estratégia usada pelas raposas fascistas e nazistas: o culto ao nacionalismo. Ou seja, Getúlio queria desfiles cívicos nas ruas, bandeiras tremulando em cada esquina, o hino nacional sendo cantado a plenos pulmões (sem sotaque europeu) e a língua portuguesa nas escolas de todo o Brasil. Somente a língua portuguesa.
As medidas de Vargas tiveram forte impacto na região Sul do país, que concentrava muitos imigrantes em sua população. Aqui em Ijuí, quem sofreu o baque foi o colégio Ijuiense, conhecido hoje como CEAP. Como a maioria do seu corpo docente, diretoria e alunos tinham descendência germânica, a língua que fluía pelas salas de aula, corredores e lares era o alemão. Diante do quadro de diretores da escola, percebe-se pelos sobrenomes dos três primeiros (Rosenfeld, Siedenberg, Mittag) e pelos gritantes bigodes, que se trata de alemães natos, alimentados a polenta e salame. De tão enraizado e genuíno, o ensino da escola considerava, em certos aspectos, o português como uma língua estrangeira.
Nessas circunstâncias, as medidas impostas por Vargas foram impactantes. Da noite para o dia, estava proibido o ensino da língua alemã, e o seu uso nas dependências da escola passou a ser banido. Os materiais didáticos, livros em língua alemã, ensino das tradições germânicas estavam na mira de um tipo de inquisição nacionalista. Nem o culto religioso escapou do sarrafo, as celebrações só poderiam prosseguir, legalmente, se feitas em língua portuguesa. Tudo isso para catapultar a nacionalidade brasileira, e, conseqüentemente, suplantar as raízes germânicas. Sem poder bater pé, só restou às instituições de ensino obedecer às novas regras do jogo. A escola teve que renovar quase todo o seu corpo docente, os alemães bigodudos deram lugar a brasileiros natos. Só poderia dar aula quem falasse fluentemente o português, ou seja, pouquíssimos. Nas cidades vizinhas, que também contavam com escolas de imigrantes, muitas simplesmente fecharam as portas por não conseguir atender a todas as exigências de Vargas. O colégio Ijuiense (antigo nome do CEAP) encontrou sua salvação na Comunidade Evangélica Ijuí, que se comprometeu em manter a escola em funcionamento, apesar de todas as adversidades. A escola passa a se chamar Colégio Sinodal, recomeça suas aulas como manda o protocolo, mas os alunos resolveram ficar em casa. Segundo dados do trabalho “Instantâneos de uma Escola Alemã no Panorama de uma Colonização Multiétnica: O CEAP em Ijuí” da professora Mônica Brandt, o colégio que contava com cerca de duzentos alunos, passou a ter 31.
Se 1938 foi um ano ruim, os anos seguintes não foram tão cruéis ao CEAP. Passado o choque inicial, a escola se adaptou ao plano patriota e alcançou aos poucos a identidade nacional. Os bambinos e os alemãezinhos cantavam o hino e sabiam tudo de Cabral, D. Pedro e Benjamim Constant. Marchavam com cadência, respeitavam a bandeira verde-amarela e amavam o presidente. Aliás, toda sala de aula tinha o retrato de Getúlio Vargas pregado na parede. Estava concretizado o nacionalismo brasileiro em detrimento do nacionalismo imigrante. O estado novo termina coincidentemente junto com a Segunda Guerra Mundial, e vê o seu plano de Nacionalização do Ensino obter êxito. O CEAP atinge estabilidade, passa a ter um bom número de matrículas, contrata professores especializados em língua portuguesa e constrói novas dependências. Passado o período de turbulência, o CEAP olha para o ano de 1938 com orgulho de um campeão, ao ver o obstáculo deixado para trás.
07/09 - Feriado Dia da Independência
07/09 - CEAP no Desfile da Pátria
08/09 - Coral Infantil na OASE
9-11/09 - 32ª ATESE
11/09 - Provões atrasados - 8h